Pesquisador responde críticas ao seu artigo 'Transgênicos, riscos e as incertezas da ciência'
Não se trata de negar os avanços que a ciência pode trazer. Mas como não há possibilidade de se prever exatamente o que ocorrerá com a saúde dos ecossistemas com a ampla difusão dos transgênicos, que as decisões sejam tomadas pela sociedade com base num amplo balanço de benefícios e prejuízos de todos os envolvidos
Mensagem de Marcelo Firpo de Souza Porto, pesquisador do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca - Fundação Oswaldo Cruz:
O artigo 'Transgênicos - Fatos e Dúvidas', do Dr. Ernesto Paterniani publicado no Jornal da Ciência de 22/01/04, faz comentários ao meu texto 'Transgênicos, riscos e as incertezas da ciência', publicado no mesmo jornal em 07/01/04.
Gostaria de fazer um reparo importante. Ao final de seu artigo, o autor escreve: 'Finalmente, é de se lamentar a afirmativa do Dr. Souza Porto, acusando 'os cientistas, técnicos e produtores 'vendidos ao grande capital' das empresas transnacionais ...'. É bastante comum pesquisas desenvolvidas por instituições públicas, serem mais tarde amplamente utilizadas pelo setor privado.'
Infelizmente o autor não compreendeu corretamente essa parte inicial de meu artigo, que reproduzo literalmente a seguir:
'Tanto no Brasil quanto em outros países as polêmicas têm sido marcada por embates e dificuldades de comunicação entre cientistas, ecologistas, instituições e políticos. Usando clichês presentes no debate atual, de um lado encontram-se os 'obscurantistas' e 'ambientalistas românticos' que rejeitam a ciência e o progresso. De outro lado, os cientistas, técnicos e produtores 'vendidos ao grande capital' das empresas transnacionais, que só querem os lucros de curto prazo, ignorando perigos e externalizando os custos para a saúde e o meio ambiente. Cada lado se intitula representante da 'verdade' que enfrenta a ignorância ou a maldade do outro lado. Via de regra, observamos um enorme distanciamento entre os discursos dos cientistas e o debate mais amplo na sociedade.'
Ou seja, não acusei os cientistas nem os ambientalistas. Apenas me referi, usando clichês atuais, às posições extremadas freqüentemente presentes nos debates entre pós e contra transgênicos, às quais não contribuem, em minha opinião, para a tomada de decisões equilibradas e justas no país.
A questão central que tentei discutir no texto é justamente sobre os fundamentos ético e epistemológico para discutirmos 'fatos e dúvidas', o que envolve o tema das incertezas e da dificuldade de um certo modelo de ciência de tratar com ela quando os riscos são complexos, caso dos transgênicos.
Um aspecto dessa complexidade é a impossibilidade de se prever adequadamente os efeitos futuros através de experimentos confinados ou modelos computacionais.
Vários 'fatos' sobre transgênicos colocados no artigo do Dr. Paterniani envolvem muitas 'dúvidas' ou incertezas que não foram mencionadas ou aprofundadas, por exemplo relacionadas ao bioconfinamento, à dita redução no uso de agrotóxicos e aos efeitos do milho Bt para a saúde humana e dos ecossistemas.
O mesmo Dr. Paterniani possui um artigo intitulado 'Confiança na ciência e nos cientistas', publicado no Observatório da Imprensa n. 100 de 20/10/2000, que inicia com uma citação de Bernardo Houssay, médico argentino ganhador do prêmio Nobel em 1947: 'Os países em desenvolvimento têm duas opções: a ciência ou a miséria.'
Com todo respeito ao autor da frase, que em 1943 foi destituído do seu cargo na Argentina por defender a democracia, eu a modificaria da seguinte forma: 'Os países em desenvolvimento têm duas opções de ciência: uma que não se preocupa com - ou mesmo reforça - a miséria social e humana, e outra que ajuda a combatê-la.' Este dilema deveria estar no centro de qualquer processo de desenvolvimento científico e tecnológico.
Como pesquisador de um campo de saber (saúde pública) e uma instituição (Fiocruz) que exemplificam as potencialidades da segunda opção, busco contribuir para que o debate sobre os transgênicos não aprofunde no futuro o fosso crescente entre a ciência e o cientistas com a sociedade como um todo.
Esse fosso vem aumentando com os riscos tecnológicos modernos, como os provenientes da indústria nuclear, da poluição química, e das tecnologias modernas da agricultura intensiva.
O caso recente do mal da vaca louca, embora sem relação direta com os transgênicos, aponta para a dificuldade dos cientistas expressarem com mais clareza a questão das incertezas frente à opinião pública.
E ao afirmarem que não existem problemas até o momento com os transgênicos, sem simultaneamente alertarem para os limites dessa afirmativa, muitos cientistas estão expondo ao descrédito a própria ciência quando e se problemas ocorrerem.
De novo, não se trata de negar os avanços que a ciência pode trazer. Mas como não há possibilidade de se prever exatamente o que ocorrerá com a saúde dos ecossistemas com a ampla difusão dos transgênicos, que as decisões sejam tomadas pela sociedade com base num amplo balanço de benefícios e prejuízos de todos os envolvidos.
Se a ampla maioria da sociedade for favorável e quisermos embarcar nessa nova aventura tecnológica, futuras conseqüências negativas não seriam atribuídas à omissão ou conivência da ciência.
Mas para isso os 'fatos e dúvidas' deveriam ser explicitados com todas as letras, incluindo as incertezas e os possíveis riscos, além de quem serão os beneficiados e os prejudicados.
O abismo entre os que se beneficiam e os que recebem as cargas negativas do desenvolvimento é responsável pela enorme injustiça ambiental no Brasil e no mundo.
Sem tais compromissos éticos, a relação entre 'ciência e miséria' não será libertadora nem garantirá um futuro sustentável.