A toda ação corresponde uma reação, e o seu contrário, artigo de Paulo Roberto de Almeida
Estava esperando comentários de fundo ao meu registro crítico de que os autores do manifesto em nenhum momento consideraram as limitações da realidade brasileira aos tomadores de decisão no campo da política econômica, mas o que apareceu como contra-reação certamente não honra as tradições acadêmicas, ao se prenderem à pessoa, não aos argumentos
Paulo Roberto de Almeida, sociólogo 'aprendiz' (pralmeida@mac.com; http://www.pralmeida.org). Artigo enviado pelo autor ao 'JC e-mail':
Aprendi várias coisas ao ler a irada, mas não surpreendente, contra-reação do cientista político José Eisenberg à minha reação ao abaixo assinado dos acadêmicos de crítica à política econômica do governo Lula em seus primeiros onze meses de exercício.
Em primeiro lugar, a inédita tipologia dicotômica que classifica os acadêmicos em autoritários ou democratas, segundo as lentes de quem escreve.
Em segundo lugar, a declaração, por certo autoritária, de que eu teria 'revogado' (sic) o direito de pessoas (ou seja indivíduos genéricos, não acadêmicos) opinarem publicamente sobre os rumos daquela política econômica.
Em terceiro lugar, a 'informação' (que me era desconhecida até então) de que, sendo eu mesmo acadêmico, nutriria 'ódio' (resic) pelos mesmos acadêmicos, o que constituiria uma notável capacidade de odiar-se a si mesmo, ou seja, uma notória manifestação de patologia auto-destrutiva.
Em quarto lugar, a recomendação de que eu deveria subtrair ao conhecimento dos leitores do 'JC e-mail' minha dupla condição, profissional e acadêmica, optando apenas pela primeira (diplomata), 'deixando o (m)eu lado sociólogo no armário' (trisic), como se isso alterasse o conteúdo de minhas opiniões pessoais, expressas publicamente, as do cidadão, não enquanto servidor do Estado ou rebento da academia.
Em quinto, mas não último lugar, a de que, por artes da dialética, quantidade também expressa qualidade, na medida em que o abaixo assinado, segundo informação do irado comentarista, teria, 'até o momento da redação desta mensagem, (a assinatura de) 130 pessoas', sendo eu 1 (um) único e solitário contestador.
Sem pretender reagir a todos os furibundos ataques a meus comentários, o que só aborreceria os leitores deste boletim, eu gostaria de tranqüilizar o iracundo professor mediante os seguintes esclarecimentos.
Ele tem razão em recomendar que eu deveria guardar o meu lado de sociólogo no armário, uma vez que sou tão somente doutor em ciências sociais.
Por circunstâncias que não vêm ao caso detalhar aqui, passei a maior parte de minha vida economicamente ativa na condição de servidor público federal do serviço exterior brasileiro, não tendo tido a oportunidade de desempenhar-me como 'sociólogo'.
Por isso mesmo, vou acatar sua sugestão e passar doravante a me classificar apenas como 'sociólogo aprendiz'.
Tenho de agradecer-lhe, por outro lado, a publicidade gratuita em torno de alguns de meus trabalhos - o que meu natural reservoso me impediria mencionar - e que, como ele sublinha, são quase todos acadêmicos, ainda que eu agora não saiba se devo classificá-los na categoria de textos 'democratas' ou 'autoritários', segundo a dicotomia oferecida pelo autor da contra-reação.
Sinto muito, por outro lado, tê-lo decepcionado, e provavelmente a muitos outros acadêmicos, pelo fato de ter aceito um convite dos organizadores do conclave acadêmico de Caxambu para falar como acadêmico a outros acadêmicos (e alguns penetras, entre os quais eu poderia me auto-classificar).
Doravante prometo participar de encontros que juntem apenas diplomatas, com o que chegaríamos à perfeição do aparteísmo que parece defender meu detrator: acadêmicos falam para acadêmicos, aprendizes e franco-atiradores se abstenham por favor, cada categoria profissional na sua torre de marfim.
Apenas não logrei compreender, e agradeceria esclarecimentos adicionais, como eu poderia ser 'autoritário' ao supostamente pretender cercear o direito de palavra de um grupo de acadêmicos, se eu mesmo reivindico esse direito, faço pleno uso dele, e achei muito gentil o fato de meu contraditor ter tido o trabalho de usar o seu direito de manter um debate democrático?
Seria autoritário solicitar algum comentário suplementar sobre essa contradição aparente entre os meus hábitos e os de meu irado opositor?
Falando de quantidade e qualidades, observei que os autores do abaixo assinado empregaram 1245 palavras (7985 caracteres) para criticar 'democraticamente' a política econômica do governo, eu mesmo dediquei 1178 palavras (7926 caracteres) para reagir 'autoritariamente' a esse manifesto acadêmico, e meu contrariado comentarista deu-se à pachorra 'democrática' de mobilizar 1065 palavras (6844 caracteres), não para contradizer meus argumentos, mas para atacar-me de maneira tão pouco acadêmica.
Confesso sinceramente que aguardava reações a meus comentários provocadores, mas não esperava, juro, que elas viessem dessa forma tão, digamos, pouco acadêmica.
Estava esperando comentários de fundo ao meu registro crítico de que os autores do manifesto em nenhum momento consideraram as limitações da realidade brasileira aos tomadores de decisão no campo da política econômica, mas o que apareceu como contra-reação certamente não honra as tradições acadêmicas, ao se prenderem à pessoa, não aos argumentos.
Trata-se, posso apontar?, de escapismo manifesto, já que a melhor maneira de fugir a um debate -- que se me afigura necessário -- é o recurso ao ataque pessoal, passando por cima (ou abaixo) da substância desse debate.
Reafirmo que não pretendo polemicar com o acadêmico em questão, pelo menos não de forma acrimoniosa. Aceito um debate (democrático, por certo) quanto ao mérito do abaixo assinado, mas não se enquadra em meu feitio ficar dando estocadas em relação à condição pessoal ou esgrimir a situação profissional de uma das partes, o que me parece uma qualidade típica de personalidades autoritárias.
Deixo, portanto, uma sugestão (acadêmica): como meu irado opositor indicou que o abaixo assinado constitui uma 'manifestação ainda em construção de uma parcela da sociedade civil brasileira', proponho que aguardemos o final da construção para aí então iniciarmos um processo democrático de debate público, contraditório por certo (como corresponde ao meio acadêmico), sobre opções de política econômica no contexto do Brasil atual. Propostas nesse sentido aos cuidados do Jornal da Ciência e-mail.
PS1.: Agradeceria ainda receber uma definição precisa sobre a exata diferença entre um acadêmico autoritário e um acadêmico democrata, pois confesso que essa parte fugiu à minha compreensão de sociólogo aprendiz.
PS2: Para comparar quantidades, este texto possui 888 palavras (5900 caracteres).