Da diferença entre acadêmicos autoritários e acadêmicos democratas, artigo de José Eisenberg
A manifestação do Sr. Paulo Roberto de Almeida é autoritária porque revoga publicamente o direito das pessoas opinarem publicamente sobre os rumos da política econômica em nosso país
Eisenberg é professor de Ciência Política do Iuperj. Artigo enviado pelo autor ao 'JC e-mail':
Dizia Fernando Pessoa que o grande mal dos modernos foi ter perdido o senso comum sem ter aprendido a raciocinar.
No caso de alguns 'acadêmicos' hodiernos, parece-me que o problema é terem aprendido a raciocinar sem nunca terem adquirido algum senso comum.
Este é o caso da manifestação autoritária, arrogante e completamente desprovida de autocrítica do 'acadêmico' Paulo Roberto de Almeida neste espaço e que, em vista do aparente ódio que nutre pelos 'acadêmicos', talvez devesse assinar seus documentos e manifestações públicas apenas como diplomata, deixando o seu lado sociólogo no armário.
O abaixo assinado intitulado 'Ainda há tempo' que circulou no Jornal da Ciência, e do qual sou signatário, é uma manifestação ainda em construção de uma parcela da sociedade civil brasileira com um único e modesto objetivo: trazer à opinião pública uma interpretação da atual conjuntura política e econômica que vivemos, compartilhada, até o momento da redação desta mensagem, por 130 pessoas.
Parte desta lista é composta por 'acadêmicos', mas outra boa parte é composta de 'não-acadêmicos', e nem por isso são estes menos capazes de refletir sobre os rumos da nação em que vivem e de opinar sobre eles.
A manifestação do Sr. Paulo Roberto de Almeida é autoritária porque revoga publicamente o direito das pessoas opinarem publicamente sobre os rumos da política econômica em nosso país.
Se a máxima do Parreira que ele cita ao final de sua mensagem fosse aplicada universalmente -- 'cada macaco no seu galho' -- o que fazer da 'Carta ao Presidente (qualquer que seja ele)', publicada por Paulo Roberto de Almeida em setembro de 2002 na Revista Espaço (vejam que ironia...) Acadêmico? Trata-se, bem ao seu estilo retórico, de um receituário político para o próximo presidente que seria eleito aquele ano, como o são inúmeros outros textos por ele assinados ('dez teses', 'o que eu faria', 'treze idéias') e disponíveis no site da revista supracitada (http://www.espacoacademico.com.br/a_almeida29.htm).
E o que fazia o Sr. Paulo Roberto de Almeida em Caxambu em outubro, participando do Encontro Anual da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs)?
Lá, participou de uma mesa redonda sobre, pasmem, a conjuntura política, falou de economia, e ainda por cima no meio de tantos 'acadêmicos' na 'torre de marfim' que eles provisoriamente construíram em Caxambu para aquele encontro.
Acadêmicos democratas, diferentes do Sr. Paulo Roberto de Almeida, consideram abaixo-assinados, manifestações em órgãos da imprensa, como as que ele periodicamente faz, e todo e qualquer gesto opinativo de cidadãos preocupados com o seu país, iniciativas legítimas por sua própria natureza expressiva, contribuições essenciais para a ampliação do debate público acerca dos rumos da nação.
Acadêmicos autoritários como ele, por outro lado, se arrogam o direito exclusivo de opinar. E afinal, se o Parreira que o Sr. Paulo Roberto de Almeida evoca estivesse querendo dizer o que imputa este Sr., pobre seria a torcida (inclusive o Presidente) e a crônica esportiva brasileira, que estariam agora, por decreto do técnico da seleção, proibidos de opinar sobre a performance do time brasileiro.
Acadêmicos democratas, entretanto, sabem que o Sr. Paulo Roberto de Almeida não leu com atenção as declarações do Parreira e as retirou do seu devido contexto, assim como fez com o abaixo-assinado que é alvo de sua manifestação.
Além de autoritária, a mensagem do Sr. Paulo Roberto de Almeida é arrogante. Ela ignora o conteúdo político do abaixo-assinado por discordar de sua orientação econômica e tenta desqualificar o seu conteúdo desqualificando o que acredita ser a posição institucional e política de seus autores.
O abaixo-assinado é uma manifestação de pessoas que, em sua grande maioria, apoiaram as medidas austeras no plano econômico adotadas pelo Presidente Lula quando assumiu a presidência.
Diferente daqueles que consideram estas medidas um fim em si mesmo, entretanto, estas pessoas acreditam que é chegada a hora de direcionar a nossa política econômica para objetivos mais ousados do que a estabilidade econômica tão duramente restabelecida ao longo deste ano.
Estas pessoas confiam que o presidente saberá conduzir de forma prudente e responsável esta transição; acham, entretanto, que ela precisa começar logo.
Como 'acadêmico', sinto-me pessoalmente ofendido por diversas passagens do texto, mas pouparei o leitor de comentar uma a uma aqui. Deixo apenas um registro sobre a passagem mais despropositada escrita por este Sr., que se autodenomina sociólogo (portanto 'acadêmico') mas que demonstra desconhecer inteiramente a realidade vivida pelos 'acadêmicos' em nosso país.
Diferente do Sr. Paulo Roberto de Almeida (o diplomata), que deve ter inúmeras aplicações financeiras que certamente o qualificam como parte da nossa 'elite financeira', a maior parte dos 'acadêmicos' brasileiros sobrevive apenas com salários.
Aliás, o salário médio do professor universitário doutor e concursado na rede de ensino público superior, deteriorado por anos de políticas fiscais austeras e desinvestimento do poder público em educação, ciência e tecnologia, encontra-se hoje em torno de R$3.000,00 líquidos. Triste é o país em que um salário destes torna um cidadão parte dos 10% mais ricos.
Mais triste ainda é o cidadão (provavelmente parte dos 1% mais ricos) que não enxerga, por ignorância ou malícia, que a trágica escolha de não gastar hoje e poupar para amanhã é a única forma que trabalhadores assalariados têm para se proteger contra a instável vida a que lhe submetem tão freqüentemente aqueles que dirigem a economia do país.
Enfim, pobres de espírito, ainda que provavelmente não de renda, são homens como o Sr. Paulo Roberto de Almeida que se sentem no direito de desqualificar manifestações modestas da opinião pública, como um mero abaixo-assinado, pela desqualificação de seus supostos signatários, que sequer conhece, e não pela crítica responsável às idéias nele contidas.
São homens quase modernos, que sabem raciocinar, mas que nunca tiveram senso comum. Pois se o tivessem, não teriam maiores dificuldades em enxergar a gravidade da conjuntura política e econômica que vivemos.
Talvez os signatários deste abaixo-assinado ainda não tenham aprendido a raciocinar, como insinua o Sr. Paulo Roberto de Almeida. Mas eles pelo menos têm o bom senso de saber que ainda há tempo para reverter esta conjuntura e de confiar no Presidente Lula para liderar este processo.