Nova traição dos clérigos? Comentários sobre o manifesto por mudanças na política econômica
Pergunto: qual o mandato concedido aos acadêmicos para fazerem tais tipos de exigências? Que autoridade possuem eles para pretenderem que suas idéias sejam implementadas?
Mensagem de Paulo Roberto de Almeida é sociólogo e diplomata (pralmeida@mac.com):
'A propósito do 'Abaixo-assinado' que pede mudanças na política econômica de Lula:
A Nação vive de fato um momento político sem precedentes em sua história republicana, mas disso não parecem ter se apercebido os acadêmicos, encerrados como de hábito em sua torre de marfim, mas que pretendem ainda assim falar em nome dela: sem ter obtido nenhum voto popular, nenhum mandato executivo, sem arriscar cargos ou posições, eles pretendem encarnar a vontade da Nação e promover, por indução própria e pela enésima vez, mudanças que eles consideram efetivas na condução da política econômica do país.
Um líder operário, que no passado prometia mudanças radicais nessa política econômica, assumiu a Presidência da República, tomando então consciência dos problemas que deve enfrentar todo líder político investido de um cargo dessa natureza.
A revolução pelo voto com que sonhavam os acadêmicos teve então de se confrontar com todos os constrangimentos por que passam todos aqueles que assumem cargos dotados de tais responsabilidades: limitações orçamentárias, constrangimentos fiscais, ausência de base congressual adequada, fragilidade financeira externa, demandas sociais e setoriais em muito superiores às disponibilidades efetivas, enfim o conjunto de problemas com que se defronta todo presidente responsável e que só parece fugir à compreensão dos acadêmicos.
Estes se permitem falar em 'elite financeira nacional e internacional' porque têm dela uma noção puramente abstrata e não se consideram, eles mesmos, como parte dessa elite financeira nacional, com suas aplicações em banco ou mesmo modestas poupanças individuais.
Eles querem nos convencer que vivem, como a maioria do povo brasileiro, apenas de seus salários, mês a mês, e que não possuem sequer uma única aplicação bancária. Eles também pretendem falar em 'racionalidade econômica abstrata', mas parecem viver de abstrações, não da racionalidade concreta dos números do orçamento.
A 'herança maldita' de que falam os acadêmicos e mesmo muitos defensores do governo atual constitui uma bela construção mental, feita metade de problemas reais, estruturais da economia e da sociedade brasileira, a outra metade tendo sido o resultado do próprio processo eleitoral, que, aceitem ou não os promoteres dessa tese fragilíssima, provocou uma deterioração geral dos indicadores econômicos relevantes, processo que o governo atual apenas agora está conseguindo reverter.
Os atuais indicadores voltam a ser o que eles eram em abril de 2002, e em alguns casos em meados de 2000, depois de superada a crise da desvalorização.
Isso não parece ser reconhecido pelos acadêmicos, mas eles insistem em recusar-se a olhar para os números.
Desde então, a despeito da extraordinária produtividade dos acadêmicos em produzir 'manifestos econômicos' de vários tamanhos, estilos e conteúdos, eles falharam, miseravelmente, em oferecer contorno, substância e coerência para o que chamam de 'política econômica alternativa', que só existe na mente abstrata dos que assim escrevem.
Em nenhum momento, eles expuseram a factibilidade de uma tal política econômica, com base não na retórica habitual, mas em números, relações de causa a efeito e sobretudo em condições de sustentabilidade fiscal, adequação orçamentária e uma correta avaliação dos custos e benefícios de uma 'outra política econômica', que nunca foi detalhada de fato.
Ela é aventada, sugerida, invocada, clamada, exigida e até implorada, mas nunca exposta de forma clara e coerente, com todas as limitações e constrangimentos efetivamente existentes na realidade brasileira.
Pergunto: qual o mandato concedido aos acadêmicos para fazerem tais tipos de exigências? Que autoridade possuem eles para pretenderem que suas idéias sejam implementadas? Em uma palavra: quem avalia as propostas acadêmicas?
Ou eles pretendem que seus requerimentos de política econômica alternativa sejam aceitos sem discussão no parlamento, sem exame dos responsáveis pelas contas públicas, por aqueles que, finalmente, foram investidos de tais responsabilidades pelo voto popular ou por decisão presidencial.
Estamos assistindo, infelizmente, ao velho espetáculo de acadêmicos sem responsabilidade executiva fazendo circular papeis abstratos como se eles fossem dotados de uma legitimidade intrínseca para que seus conceitos vagos e idéias alternativas fossem imediatamente aceitos pela sociedade e incorporados por aqueles que detêm a responsabilidade de conduzir a Nação.
Afinal de contas, o que significa 'promover o desenvolvimento econômico, estabelecer condições para o pleno emprego e empenhar-se pela inclusão social, até que o ciclo de desenvolvimento alcance a totalidade dos brasileiros'?
No meu modo de ver, trata-se de uma bela invocação de um estado ideal, com que sonhamos todos nós, mas que infelizmente não se faz seguir de uma descrição precisa dos meios, instrumentos, mecanismos e modalidades de políticas setoriais e medidas administrativas que permitiriam atingir tal nirvana de felicidade bruta nacional.
Não há sobretudo, nesse meio etéreo em que flutuam os acadêmicos, nenhum constrangimento fiscal, nenhuma limitação orçamentária, nenhuma fragilidade externa, nada que possa opor-se, de fato, à concretização da cornucópia idealista na qual eles parecem se comprazer.
O que dizer, por outro lado, desta certeza dirigida ao próprio Presidente da República?: '(ele) sabe que terá que abandonar este modelo e lançar as bases de um novo paradigma. E a mudança a ser empreendida não admite meio termo'
Tanta segurança poderia fazer pensar que os acadêmicos descobriram o Santo Graal do desenvolvimento por moto-contínuo, a felicidade a custo zero, a prosperidade como um manancial dos céus, e a distribuição sem limites na realidade.
De fato, eles oferecem algumas vias: 'abandono das metas de elevadíssimos e desnecessários superávits fiscais primários', 'controle seletivo sobre o fluxo de capitais externos', 'recuperação do controle estatal sobre a administração da dívida pública' e algumas outras fórmulas do gênero. E como se poderia fazer isso?
Pasmem os leitores, mas à custa de força moral, do apoio de todos os brasileiros, da mobilização política nacional, enfim do que eles chamam de 'opinião pública mobilizada', tendo à sua frente os mesmos acadêmicos que sempre nos prometem facilidades mas não conseguem conviver com a realidade.
O que se deve esperar, desse tipo de atitude, é que, mais uma vez, os acadêmicos conseguem se auto-excluir, totalmente, de um debate responsável sobre os rumos da política econômica no país.
Este deveria idealmente ser feito com base em argumentos racionais, em evidências empíricas, em dados concretos da situação econômica do país, não a partir de julgamentos apressados, politicamente motivados e de natureza subjetiva, como aqueles que lemos no abaixo assinado em questão.
Ele constitui, literalmente, um abaixo-assinado, não uma proposta de alto significado econômico ou sequer político. Como já ocorreu anteriormente, trata-se de um protesto de pessoas ressentidas com o fato de que suas propostas não foram acatadas pela equipe dirigente e não terem sido convertidas em políticas públicas.
Teria sido um rápido itinerário em direção do descontrole inflacionário, da fuga de capitais, do descalabro fiscal e do estrangulamento externo, situações já conhecidas por essa mesma geração de acadêmicos que ainda insiste em tentar promover idéias ultrapassadas e propostas surrealistas de política econômica.
Creio, pessoalmente, que os que assumiram responsabilidade governativas desde janeiro de 2003 possuem bom senso suficiente para não arriscar um mandato duramente conquistado na arena da irresponsabilidade econômica e do aventureirismo político.
Como diria o Parreira, 'cada macaco no seu galho'. Os dirigentes com mandato exercem sua responsabilidade no comando da Nação, e os acadêmicos escrevem manifestos para deleite dos mesmos crentes de sempre.'