Nave japonesa em rota de colisão com o planeta vermelho não foi esterilizada; o impacto seria em 14 de dezembro
Salvador Nogueira escreve para a 'Folha de SP':
Atualmente, a maioria dos cientistas acredita que não haja formas de vida em Marte. Mas tudo pode mudar a partir de 14 de dezembro, quando a sonda Nozomi deve se espatifar contra o solo do planeta vermelho, caso permaneça em seu curso atual, segundo informou a Jaxa (Agência de Exploração Aeroespacial do Japão).
Originalmente planejada para entrar numa órbita em torno de Marte, a nave não foi propriamente esterilizada, como acontece com todos os módulos de pouso enviados àquele mundo.
Há o risco de que seus sistemas abriguem organismos terrestres capazes de sobreviver à viagem interplanetária. Se também resistirem à travessia atmosférica, poderão muito bem iniciar uma nova vida colonizando o planeta vermelho.
Os engenheiros japoneses trabalham agora furiosamente na tentativa de desviar a sonda de seu destino fatal, mas a perspectiva não é animadora.
Seus motores principais não estão funcionando, e o combustível está quase no fim. A energia da nave está baixa e os instrumentos científicos, quase inutilizados. Na verdade, já é uma espécie de milagre que a nave tenha chegado até lá.
Lançada em 1998, a sonda deveria ter chegado aos arredores de Marte em outubro de 1999.
Mas problemas com propulsão e eletricidade a bordo impediram a nave de entrar na rota correta. Depois de passar um tempo perdida no espaço (sem comunicação), a Nozomi foi encontrada e recebeu novo plano de vôo, passando de raspão pela Terra e ganhando impulso extra para atingir Marte.
Uma rota de impacto direto foi selecionada, para encurtar a distância percorrida até o planeta vermelho. A chegada ficou marcada para o mês que vem.
Nesse meio tempo, os engenheiros japoneses esperavam poder sobrepujar os problemas de energia a bordo e alterar a rota, a fim pôr a nave em órbita de Marte. Ao que tudo indica, isso não vai acontecer.
Bactérias terrestres já mostraram sua capacidade de sobreviver ao vôo espacial durante o programa americano de exploração lunar, nos anos 1960.
Em 1967, microrganismos inadvertidamente se infiltraram num dos sistemas de uma sonda Surveyor, que fez um pouso na Lua. Sobreviveram lá por quase três anos, em hibernação, até serem resgatados e trazidos à Terra pela nave Apollo-12.
'Seria um problema real se a Nozomi atingisse Marte', diz Benjamin Weiss, pesquisador do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia).
Anos atrás, mostrou que rochas arrancadas da superfície de planetas também poderiam ser meios de transporte viáveis para bactérias. 'Com isso, se vida fosse achada em Marte no futuro e fosse similar à da Terra, sempre haveria a incômoda sugestão de que poderia se tratar de recém-chegados da Nozomi!'
A Nasa (agência espacial americana) está preocupada só com a perda científica, já que a Nozomi leva instrumentos americanos. 'A Nozomi iria fazer muito da ciência de aeronomia [estudo da alta atmosfera] de que precisamos', diz James Garvin, cientista-chefe do programa de exploração marciana.
'Mas nossa opinião é que a queima na entrada atmosférica, como ocorreu com a nossa Mars Climate Orbiter em 99, não teria grande efeito de contaminação.' (Folha de SP, 15/11)