Aprendendo com Bonaparte, artigo de Reginaldo Marinho
Olhar para o futuro não implica em esquecer ou absolver os erros dos governos anteriores; é, principalmente, transcender às matizes políticas e corrigir os rumos equivocados e conduzir o país para um cenário internacional competitivo
Reginaldo Marinho é inventor premiado com medalhas de ouro em Genebra e Londres e ex-professor de geometria descritiva. Artigo enviado pelo autor ao "JC e-mail";
Napoleão foi um dos maiores estrategistas de toda a História. Um de seus conselheiros, o célebre matemático francês Gaspar Monge, foi quem elaborou os princípios da Geometria Descritiva.
Essa disciplina ganhou tanto prestígio nos planos do imperador que ela passou a ser ministrada a seus oficiais superiores em beneficio das ações estratégicas promovidas em seu Império.
A grande contribuição da Geometria Descritiva refere-se à iluminação espacial para quem se dedica ao seu estudo. Ela se tornou ponto de convergência do lúdico com a ciência, com a matemática, com a inteligência espacial.
Poderosa ferramenta para qualquer pessoa compreender melhor o seu entorno; para um médico interpretar uma radiografia; para um motorista manobrar um automóvel...
Seguramente não teria sido para essas pessoas que Monge elaborou esses princípios. Ele olhava para o futuro. Concretamente, o seu uso já passava a ter aplicações objetivas na fabricação de artefatos marciais, na compreensão do espaço urbano e nos deslocamentos de tropas.
Napoleão passava horas com soldadinhos em miniatura, formulando jogos de guerra, em campos de batalhas virtuais, experimentando os seus conhecimentos estimulados pela sua notável inteligência espacial, adquirida com a colaboração de Monge.
No Brasil, buscamos a trajetória da contra-mão. Durante o governo militar sendo ministro da Educação o coronel Jarbas Passarinho, o nosso país sofreu uma brutal violentação através da reforma implantada por aquele governo à nossa educação.
Apenas para identificar uma dessas brutalidades, destacamos a exclusão da Geometria Descritiva do currículo brasileiro e para acentuar essa violência, merece o registro da manutenção dessa disciplina nos cursos de 2º e 3º graus em todas as instituições de ensino das três forças. Essa matéria é importante para os militares e não serve para os civis?
O que se conclui imediatamente é que os militares que promoveram essas mudanças aplicaram uma punição perversa aos brasileiros que optaram desde aquela época por carreiras técnicas que exigem permanentemente o uso da inteligência espacial como: arquitetura, engenharia, desenho industrial e tantas categorias que poderiam se beneficiar desse valioso conhecimento.
Mesmo que os avanços tecnológicos se voltem prioritariamente para a informática, não se pode prescindir, em nenhuma hipótese, da inteligência espacial como instrumento eficaz para a qualificação de profissionais que poderiam contribuir mais e melhor na construção de maquinas, equipamentos e produtos para o conforto dos brasileiros e o fortalecimento da economia nacional.
Olhar para o futuro não implica em esquecer ou absolver os erros dos governos anteriores; é, principalmente, transcender às matizes políticas e corrigir os rumos equivocados e conduzir o país para um cenário internacional competitivo que absorva todas as contribuições do conhecimento que possam incrementar o desenvolvimento tecnológico próprio.