Geólogo da UFPE diz que esta é a primeira vez que um trabalho científico realizado no país confirma solidamente a ocorrência do fenômero no continente
Pesquisadores encontraram, pela primeira vez na América do Sul, provas de que o continente viveu a grande glaciação que atingiu a Terra 570 milhões de anos atrás.
O estudo, realizado pela USP, em colaboração com a UFPE e as Universidades Federais do Amazonas (Ufam) e do Pará (UFPA), se baseou na análise de amostras de rocha coletadas em Mirassol d'Oeste (MT).
Quatro grandes glaciações do planeta, que deixaram o globo parecido com uma imensa bola de neve, ocorreram há 740, 720, 600 e 570 milhões de anos.
'Esta, no entanto, é a primeira vez que se confirma solidamente que o fenômeno global atingiu mesmo a América do Sul', explica o geólogo Alcides Nóbrega Sial, da UFPE.
O pesquisador contribui com a análise de mais de cem amostras coletadas em Mirassol d'Oeste, em junho de 2001. 'Analisamos isótopos estáveis de carbono e oxigênio de rochas carbonáticas', descreve. Os carbonatos estão depositados acima dos tilitos, mineral tipicamente glacial.
O trabalho, que faz parte da tese de doutorado pela USP de Afonso César Rodrigues Nogueira, da Ufam, revelou ainda uma ondulação no local pesquisado.
'O que é mais uma comprovação da mudança climática', afirma Sial, coordenador do Laboratório de Isótopos Estáveis (Labise/UFPE).
Essa mudança climática ocorreu no período Neoproteozóico, compreendido entre 600 e 570 milhões de anos atrás. Na glaciação, com temperaturas de 50 graus negativos, a vegetação quase desaparecida da fase da Terra e apenas poucos organismos, como as cianobactérias, sobreviviam na água gelada.
No fim desse período, a temperatura atingiu 50 graus. Foi justamente essa mudança brusca que deixou marcas em Mirassol d'Oeste.
O trabalho dos pesquisadores brasileiros está sendo publicado na revista científica 'Geology', uma das mais respeitadas na área. (Jornal do Commercio, Recife, 5/8)