A nova face do colonialismo, artigo de Reginaldo Marinho
Se a importação de tecnologia continuar crescendo como tem acontecido, em breve o desembolso de royalties será superior ao orçamento federal para C&T.
Reginaldo Marinho é pesquisador, inventor premiado com medalhas de ouro em Genebra e Londres, ex-presidente nacional da Associação Brasileira dos Inventores e da Propriedade Industrial (Abripi) e coordenador da Mostra Brasileira de Invenções do Centro de Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba. Artigo enviado pelo autor:
Tecnicamente o Brasil é uma nação soberana desde o século XIX, mas a sociedade brasileira continua colonizada.
Atravessamos todo o século XX sem qualquer sinal ou atitude coletiva que assegurasse a afirmação nacional e garantisse a identidade de uma nação livre.
O colonialismo se fundamenta na prática de um relacionamento onde o colonizador se nutre das riquezas geradas na colônia, e, por outro lado, a colônia desenvolve um sentimento de inferioridade que compromete a autoconfiança da sociedade.
Com isso, entendemos que apenas o que é produzido além das fronteiras coloniais tem valor.
Esse comportamento perverso implica na fragilidade da auto-estima da população e reduz significativamente a capacidade interna de gerar tecnologia.
Em contrapartida, para dar vazão à nossa elevada fertilidade criativa e cumprir com o papel colonial, as instituições públicas estimulam a produção científica, cujo conhecimento é transferido gratuitamente aos países desenvolvidos por meio de publicações de artigos em revistas científicas editadas nos países ricos, que ficam mais ricos com a nossa contribuição, através da conversão de nossas pesquisas em patentes e tecnologias.
O exemplo mais emblemático dessa política desfocada é, sem dúvida, a experiência vivida pelo consagrado cientista brasileiro dr. Sérgio Ferreira, que foi presidente da SBPC - a instituição cientifica mais importante do Brasil - em dois mandatos.
Uma de suas pesquisas foi transformada em patente por um laboratório multinacional após a publicação de sua pesquisa. E o medicamento gerado pela descoberta movimentou um mercado mundial equivalente a US$ 2 bilhões anuais.
O pesquisador e o Brasil não receberam nenhum centavo por essa invenção desenvolvida em um laboratório público.
O Brasil já paga US$ 3,5 bilhões anuais em royalties. Há cinco anos, essa despesa era de US$ 1,8 bilhões; no fim da década de 80, o Brasil mandava US$ 600 milhões para o exterior para pagamento de royalties.
Se a importação de tecnologia continuar crescendo nessa escala, em breve o desembolso de royalties será superior ao orçamento federal para C&T.
O caminho mais curto para viabilizar o desenvolvimento sustentado passa por uma mudança imediata nesse cenário que compromete a economia nacional.