Brasil faz o primeiro transplante de célula-tronco para tratar mal de Chagas
Num procedimento inédito no mundo, médicos brasileiros fizeram, em Salvador, o primeiro transplante de células-tronco num paciente com insuficiência cardíaca decorrente da doença de Chagas
Roberta Jansen escreve para 'O Globo':
As células-tronco são capazes de se transformar em qualquer tipo de tecido do corpo e, se tudo correr bem, os especialistas esperam que elas sejam capazes de regenerar o coração do paciente - um homem de 52 anos de idade que sofre de grave insuficiência cardíaca. Testes feitos em animais apontam uma recuperação de até 80% das funções do coração.
Técnica similar foi testada com sucesso no ano passado, no RJ, onde especialistas conseguiram regenerar áreas lesionadas do coração de pacientes em estado grave por meio da terapia celular. Neste caso, no entanto, a lesão cardíaca era localizada e as células-tronco foram injetadas diretamente no local afetado.
'Na doença de Chagas, no entanto, o problema é generalizado em todo o coração - explicou o imunologista da Fiocruz Ricardo Ribeiro dos Santos, diretor do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual, que coordena as experiências com célula-tronco.
Cerca de 6 milhões sofrem da doença no Brasil
Os especialistas, então, decidiram injetar células-tronco nas três coronárias que irrigam o coração. Dessa forma, explicou Santos, asseguraram que as células fossem distribuídas igualmente por todo o órgão. As células usadas são retiradas da medula do próprio paciente e são injetadas por meio de um cateter introduzido em sua perna.
O paciente teve alta ontem, mas os médicos só poderão saber se a terapia, de fato, funcionou dentro de dois meses.
'Os testes feitos em animais, no entanto, mostraram que a partir do quinto dia as células já começam a se transformar em tecido cardíaco', afirmou Santos.
'Mostraram também que a terapia não apenas regenera os tecidos, como controla a inflamação no coração que, no caso dos pacientes de Chagas, é muito séria.'
Atualmente, cerca de seis milhões de brasileiros (a maioria em idade produtiva) sofrem do mal de Chagas, causado pelo protozoário Trypanosoma cruzi.
Na maioria dos casos, a doença não traz maiores conseqüências, mas, em 30% deles ela evolui para uma cardiopatia grave. Os pacientes apresentam alterações do ritmo cardíaco ou insuficiência cardíaca (falência do músculo do coração) que podem levar à morte.
Os médicos do Hospital Santa Izabel esperam testar a terapia em mais quatro pacientes até o fim de julho com o objetivo de verificar possíveis efeitos colaterais. A segunda fase do estudo prevê que, até dezembro, mais 25 pessoas sejam submetidas à terapia. (O Globo, 21/6)