Milhares de inventos brasileiros adormecem nas Universidades, nos centros de pesquisas e nas pranchetas dos inventores independentes, quando poderiam ser produzidos e exportados para o mundo inteiro
Orlando Villar, mestre em engenharia, é diretor do Centro de Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba
O mundo inteiro assistiu à queda do presidente norte-americano. Tradicionalmente, os governantes norte-americanos fazem o papel de garotos propaganda dos produtos tecnológicos e industriais dos EUA.
Esses gestos são saudáveis e eficientes, pois a imagem consagrada de um político da envergadura do presidente de um país ajuda no marketing de qualquer produto, no caso o presidente Bush tentou dar ênfase a um invento americano, A Coisa, encalhado há mais de 3 anos.
Não deu certo, porque ele levou um tombo espetacular, mas valeu a lição
Temos muito a aprender com os americanos quando o assunto é marketing, um brasileiro inventou o avião e eles impuseram a autoria da descoberta aos irmãos Wright, até que o presidente Bill Clinton, em sua viagem oficial, declarou em seu discurso no Itamarati, que ele reconhecia que o inventor do avião foi Alberto Santos Dumont, nenhum veículo de comunicação deu importância a essa declaração, o poderoso aparato de comunicação do Estado não considerou relevante essa confissão e não repercutiu o fato.
O presidente Lula, antes de ser empossado, foi protagonista de um belo gesto ao viajar para os EUA a bordo de um avião brasileiro. Ações como essa precisam ser praticadas por princípio.
Para o fortalecimento da estima de um povo é importante que se destaque os feitos significativos de cada um membro dessa nação como instrumento de desenvolvimento.
Todos falam na retomada do crescimento, mas essa idéia fica incompleta se não for incluído nas ações governamentais um programa eficiente e responsável de incentivo às tecnologias nacionais.
Para enfatizar o compromisso do governo brasileiro com o desenvolvimento tecnológico, com a finalidade de gerar riqueza, restaurar a auto-estima nacional e fortalecer a consciência de soberania nacional, o presidente precisa ser rápido e emprestar o seu poder de sedução à essa mudança radical em favor de nossa economia.
Não se pode arrecadar mais se não estimula, em nosso país, a atividade humana que gera mais riqueza em todo o planeta.
No final de 2002, o Brasil desceu mais um degrau no ranking da economia mundial.
O PIB brasileiro foi ultrapassado pela Coréia do Sul que há 30 anos apresentava uma economia equivalente a 20% da nossa e éramos a oitava economia mundial.
Naquela época a Coréia tinha 30 patentes registradas nos EUA e nós tínhamos 33 patentes americanas; hoje temos 110 patentes americanas e a Coréia do Sul ultrapassa 3 mil patentes nos EUA.
O modelo acadêmico brasileiro é anacrônico e colonizado e não converte conhecimento em tecnologia. O desenvolvimento de novas tecnologias é o principal fator do crescimento econômico dos países ricos, pois 95% das patentes mundiais pertencem a 10 países.
O comércio internacional de tecnologias nos EUA corresponde a 4% de seu PIB, enquanto que, no Brasil, esse índice atinge apenas 0,7 % do PIB, embora contribua com 2% da produção científica global, é insignificante a conversão desse conhecimento em tecnologia.
O Brasil que já perdeu patentes importantes como a do avião, do rádio, da máquina de escrever, tem neste momento um exemplo emblemático desse descaso é o do inventor paraibano Reginaldo Marinho, premiado com medalhas de ouro em Genebra e Londres, com uma tecnologia que rompe um paradigma da engenharia mundial ao incluir uma nova modalidade estrutural, de resinas plásticas às três conhecidas: de madeira, de concreto e de metal.
No ano passado, o diretor-geral da Coppe, Luis Pinguelli Rosa, declarou no programa de rádio Faixa Livre que o Brasil não podia continuar perdendo tecnologias como a de Reginaldo Marinho e a do bina.
Não podemos entender que o governo continua recusando aplicar a tecnologia desse notável paraibano que poderia ser usada na construção de silos e armazéns, escolas, espaços culturais, casas populares, ginásios esportivos, abrigos emergenciais e tantas outras aplicações de interesse nacional, estando o Pinguellli no governo.
Nesse instante, milhares de inventos brasileiros adormecem nas Universidades, nos centros de pesquisas e nas pranchetas dos inventores independentes, quando poderiam ser produzidos e exportados para o mundo inteiro.
Nesse ambiente caduco, por falta de cultura que valorize a inteligência nacional, por falta de responsabilidade de governos anteriores que estimulasse a produção tecnológica própria, encontramos milhares de cientistas brasileiros que foram acostumados à farra de gastos públicos sem qualquer compromisso, com a conversão do conhecimento em tecnologia, com o bem-estar da sociedade e o fortalecimento econômico da Nação.